Estórias Antigas

“Era noite alta, sentada à entrada de minha tenda, eu pesava a sucessão dos dias até então.
O vento soprava constante … o vento da noite…
Pensava que tudo seguia o seu rumo e era chegada a véspera de acontecimentos grandiosos. Sabíamos disso, aguardávamos por isso.

No entanto, habitava em mim uma inquietação, uma falta, um sentimento de que algo mais precisava ser feito …

Há muito eu observava as velhas, media os seus atos, recebia cada uma de suas palavras, seguia seus conselhos. Elas diziam que estava em minhas mãos: esse ciclo e os ciclos que ainda viriam. Deixava-me guiar pelos seus preciosos ensinamentos, sua orientação amorosa e persistente.

Às vésperas do dia em que nós, mulheres daquele acampamento, teríamos que dar mostras da nossa força e de tudo o que tínhamos aprendido nas noites do deserto, habitava em mim a certeza de que amanhã eu precisaria de mais. De mais do que tinha recebido até aqui, de mais do que as velhas tinham me mostrado até esse dia.
Mas, se não era delas o ensinamento a ser colhido, de quem, então?

O vento da noite soprava… levava os grãos de areia e os pequenos objetos esquecidos pelo chão do acampamento.

Desde que havia me sentado ali, era o mesmo vento a mesma direção … o ponto mais escuro e mais denso que os olhos podiam alcançar àquela hora.

Deixei-me guiar por aquele sopro suave e doce…

Caminhei… por quanto tempo? Não sei dizer. Cheguei a um lugar de colinas, o som de águas, distingui o chiado das árvores, quase como uma canção. O vento ainda soprava persistente.

Éramos eu, o sopro, a noite e toda a sorte de formas e contornos que me esforçava por enxergar em meio àquela densidade escura.

O que aconteceu a partir dali? Nem sei se eu mesma, algum dia, poderia contar em palavras.

Mas digo que cada aprendizado junto às velhas foi uma preparação para aquele momento. Cada palavra recebida foi uma laçada para o belo tecido finalizado naquele instante. Cada gesto que observei foi um sinal precioso para conseguir atravessar a escuridão, aquela escuridão grávida da mais potente verdade.

Quando finalmente retornei ao acampamento, à porta de minha tenda, estava lá, a minha espera, aquela dentre as velhas que sempre me guiou, que esteve ao meu lado e acreditou na força que habita em mim, no momento em que nem mesma eu conseguia enxergar.

Ela me lançou um olhar doce e interrogativo, ao que lhe respondi:

– Eu mesma, estou inteiramente aqui.

Ela mergulhou o seu olhar no meu e suas mãos tocaram o alto de minha cabeça.

Nesse instante, uma aurora vermelha escura coloriu o céu do deserto.”

Blanca K’hiwaná

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